
We Need To Talk About Kevin é uma obra munida de espinhos - algozes e acutilantes - que desconchavam o espectador até ao último segundo de película, sustendo-lhe a respiração através de golpes repentinos e cortes abruptos que descerram, ao longo de quase duas horas, uma trama sadicamente deliciosa. A culpabilidade angustiosa de uma mãe exasperada, a morbidez psicopática de um filho insubordinado, um arco familiar coordenado ao mais ínfimo dos pormenores: o painel cénico é perfeito para uma destruição caótica, uma erosão flamejante do que se poderá intitular, ainda que em conceito algo desgastado, de família feliz, vivendo o dourado e cintilante sonho americano. É precisamente aí que Lynn Ramsay enquanto realizadora e argumentista (conjuntamente com Rory Kinnear) perfura, no já débil âmago de uma casa que se vai auto-mutilando desde que administrou a injecção diabólica: Kevin, o filho primogénito interpretado por um exímio Ezra Miller, que já havia dado provas do seu talento em Afterschool. Adaptado do romance original de Lionel Shriver, We Need To Talk About Kevin é a pungência cinemática no seu exponencial estético mais evidente, sendo que resulta da perfeitíssima confluência entre a montagem de Joe Bini (fria e cortante), a cinematografia de Seamus McGarvey (profundamente crua e incisiva), e a direcção artística de Charles Kulsziski (que reinterpreta as cores e concede ao vermelho toda uma conotação absorvente, não só em termos gráficos como também análogos ao guião). Narrativamente portentoso e dilacerante, há nesta última obra da cineasta Lynn Ramsay um odor nauseabundo a sangue, um som ensurdecedor a carnificina e uma alusão pictórica que remete a audiência, num efeito instantâneo, para o mais sórdido dos pensamentos, a mais repugnante das especulações e o mais vil dos cenários, socorrendo-se, quase que ironicamente, ao desespero infindável de uma Tilda Swinton avassaladoramente fabulosa - interpretativamente falando. Grotesco, hediondo e frutuosamente patológico, We Need To Talk About Kevin é um caso abissal de puro cinema - nas subtilidades proféticas do enredo ou na diletante plasticidade da sua imagética, o seu magnetismo é electrizante e, em casos de futuro registo e memória, forçosamente inesquecível.

Whore's Glory (2011 | Michael Glawogger)

Whore's Glory é uma inebriante fusão de sensações e experiências que enleva o espectador através das múltiplas filmagens, espontâneas e naturalistas, que decorrem em três realidades distintas: o tempestuoso universo da prostituição na Tailândia, no Bangladesh e no México. São as circunstâncias sociais, a contextualização geográfica e as diversas línguas que as diferem - às mulheres submetidas ao mistificado mundo do sexo como negócio - e só um factor, universalizado, é que as une: a venda do corpo a estranhos, o uso quase que mecânico da linguagem corporal enquanto modo de sobrevivência. O realizador Michael Glawogger - brilhante na documentação inconvencional dos meandros da prostituição - intercala numa só obra cinematográfica as tão contrastantes realidades desse ofício quase que ancestral, dando-lhes espaço para se desenovelarem com a verossimilhança que se espera de um documentário proficiente e ajustado aos moldes e às vivências em que ocorre, ao longo do globo e da história mundial, este fenómeno efervescente. Num México picaresco e caricatural, num Bangladesh traumático e lancinante, numa Tailândia moderna e formalizada, Whore's Glory é um diário fílmico que cataloga os vários flancos e a as diversas facetas de uma profissão que, nas copiosas derivações do termo e da asserção social em que são empregues, é preciso olhar de frente e com maturidade. Tal e qual como Michael Glawogger fez, rematando com um sentido de humor cáustico e um apuro desinibido da realidade, uma das melhores obras da última edição do Indie Lisboa. Destaque final para a excelência musical de uma banda sonora eclética, que inclui temas de PJ Harvey, CocoRosie e Antony & The Johnsons.

Into the Abyss (2011 | Werner Herzog)

Mais do que um débito informativo, uma recolha de dados ou um catálogo de entrevistas, Into the Abyss é arte fílmica. Werner Herzog, o compositor de um dos grandes filmes do Observatório do Indie Lisboa '12, é quem conduz este documentário delineado pelos dramáticos contornos de um crime que, após ter colhido três vidas, continuou a coleccionar corpos e instalou a tortuosa pergunta: qual é a legitimidade da pena de morte? Na multiplicidade de respostas e na diversidade dos inacabáveis depoimentos, Herzog mantém-se à margem da questão essencial - deverá o Estado assassinar? Se sim, com que autoridade? - e cinge-se à sua imparcialidade contemplativa enquanto realizador que estuda, meticulosa e aprofundadamente, um caso que, como tantos outros diariamente, se incrementou na base judicial e legislativa dos Estados Unidos. Meditativo e inquiridor, Into the Abyss é uma obra que, num recurso documental livre de sensacionalismos ou afirmações tendenciosas, avassala o espectador e interpela tanto os seus valores morais, como o seu juízo relativamente à pena de morte, deixando-o no íngreme binómio entre a justiça estatal e o atentado aos Direitos do Homem. No caso de se entrecruzarem, qual é que se sobrepõe? Dos mais hesitantes aos mais racionais, a pergunta ecoa por entre um público imóvel.

Alps (Alpeis, 2011 | Giorgos Lanthimos)

Canino, essa brilhantíssima obra fílmica datada de 2009, caucionou ao realizador grego Giorgos Lanthimos uma notoriedade mundial que o colocou, num circuito mais reservado de espectadores, no centro das atenções - seja pela entusiástica crítica especializada ou pelo público expectante. Se é ao protagonizar e produzir o algo sofrível Attenberg que Lanthimos deixa algumas dúvidas quanto à autenticidade do seu talento - mundialmente apregoado por deliciadas audiências ao longo da Europa, é com Alps que se desmistifica qualquer excesso precedentemente cometido: Kynodontas foi um golpe de sorte. Na execrável estrutura de um argumento tão vago e imaterial, Lanthimos e Efthymis Filippou escrevem um guião onde despontam, em ângulos narrativamente desajustados e incongruentes, uma série de ideias ensaístas (a inevitabilidade da morte e a impossível substituição de um familiar que faleceu) que se abortam em jorros de puro pretensiosismo e desrespeito dos regulamentos normativos básicos, e sob o calamitoso auxílio de filmagens aleatórias, da ausência de um fio condutor que introduzisse personagens e os respectivos contextos no enredo, e da mais abominável desconsideração da audiência, que flutua entre o dubitável e o vanguardista. Num balanço negativista até à mais tolerável das asserções, Alps é uma obra onde absolutamente nada resulta: a vacuidade argumentativa impera, subjugando os actores à idiótica deambulação em espaços narrativos sem o mínimo das condições fílmicas - nem como arte conceptual ou experimentalismo desleixado, não há desculpas para tamanha inaptidão.

Still Life (Stillleben, 2011 | Sebastian Meise)

Ao invés de se desgraçar pela previsibilidade da sua temática ou por uma hipotética cobardia cinematográfica, Still Life enfrenta uma tão turbulenta temática com um louvável destemor que afiança à película, na mais esmerada das acepções fílmicas, um realismo prazeroso. E é ao confrontar o público com uma trama destas - principiada por uma catarse inicial - que o cineasta Sebastian Meise começa por angariar pontos a seu favor, nem que seja, em piedosos termos, pela sua intrepidez enquanto realizador e co-argumentista. Porém, as dificuldades começam a fervilhar em vários esquadros: o ritmo narrativo começa por se tornar demasiado lento, as personagens centrais - e a sua focalização unilateral - tornam-se áridas e o fio condutor do enredo esmiúça-se em parcos minutos de duração. Num processo óbvio de descarrilamento (que afecta, severamente, o veredicto final e a assimilação do filme por parte do espectador), pode-se dizer que Still Life é um caso comum de descensão qualitativa: o início - aparentemente tão fecundo - prenuncia uma obra fértil e auspiciosa, mas que não o chega a ser por falta de material narrativo e pelo escusadíssimo decalcar de uma história moída até ao tutano.

Michael (2011 | Markus Schleinzer)

Frio, calculista e metódico. Que nem Michael Haneke de uma nova vaga (e as inspirações do realizador alemão são bastante claras), Markus Schleinzer estreia-se com a ousadia e a intrepidez necessárias para, depois de operar em projectos como A Pianista ou O Laço Branco, catapultar-se enquanto realizador a solo. Com a crueza doentia de um argumento espinhoso, Schleinzer lança-se às víboras de braços abertos e prontíssimo a colher o que vier - ovação mundial ou fracasso azedo, é certo que Michael não deixa ninguém indiferente nem se fica por meias medidas ou termos vagos. Incisivo e terrivelmente aguçado, eis uma fita que faz estremecer multidões sem recorrer às banalidades gratuitas da sua temática: o rapto de crianças, a pedofilia e o psicopata extremamente organizado que vive em harmonia com a comunidade circundante. Para benesse da obra e da carreira germinante de Schleinzer, o cineasta austríaco poupa-se aos clichés do género (os sentimentalismos grosseiros e os excessos manipuladores), e arquitecta uma obra assaz acutilante e portentosa, habilidosamente capaz de suster a respiração da plateia através dos seus cortes abruptos e de uma montagem grotescamente precisa e temporizada. E é por isso - esse dom de chocar com arte de altíssima qualidade - que obras tão morbidamente electrizantes como Michael serão sempre bem-vindas e acariciadas.

Em Segunda Mão (2012 | Catarina Ruivo)

Em Segunda Mão, a terceira longa-metragem realizada por Catarina Ruivo, tinha tudo para correr bem - o título de homenagem póstuma a Pedro Hestnes (que liderava um elenco promissor), uma equipa técnica de excelência audiovisual, e um argumento de moldes clássicos que transpirava inspirações hitchcockianas. Como que rendido ao adágio que assombra uma maioritária fatia das produções lusitanas, a concretização destes padrões tão aparentemente auspiciosos acabou por cair por terra - redonda e gritantemente. Tudo no desapontante Em Segunda Mão soa a talento plastificado e a embuste dramatúrgico, facto que recai na artificialidade tipicamente portuguesa de uma realizadora que, em vez de se entregar em plenitude ao material cinemático que tem ao seu dispor, contorna-o através de sucessivos despistes e falsas concludências. Isto é - ao discorrer-se sobre uma trama demasiadamente rebuscada, Catarina Ruivo perde-se no seu próprio filme e empata-se, numa visualização quase que dolorosa ao espectador, com o desastroso auxílio de cenas desnecessárias (que preconizam um enredo bem bacoco), imprecisões estéticas e narrativas que descuram uma credibilidade fílmica já de si frágil, uma péssima direcção de actores, e, por final, tece uma sensação de indiferença que sobrevoa até o público mais optimista. E se isso acontece, essa apática displicência que assolou grande parte dos espectadores, é porque algo de muito errado ocorre neste algo sofrível Em Segunda Mão. Por cá, nós chamamos-lhe de incompetência.

Rafa (2012 | João Salaviza)

Em traços gerais e introdutórios: o fenómeno Salaviza, esse que tem galgado a comunicação social portuguesa, vale muito menos do que se faz parecer. Sem descurar o brio visual de Arena ou a cinematografia apuradíssima de Rafa, é certo que o realizador lusitano tem vindo a semear uma reputação que não lhe pertence por mérito próprio ou pelo talento que lhe é, num acto quase de histeria desmesurada, apregoado. As más-línguas - ou melhor, as mais cépticas e menos iludidas - denunciaram o final abrupto de Rafa, dizendo, em jeito satírico, que a película acabou antes do suposto. A dedução - ainda que irónica - faz algum sentido. João Salaviza compôs uma curta-metragem com a minudência que já lhe é característica, tanto em termos interpretativos (Rodrigo Perdigão está particularmente exímio) como na esfera visual (a fotografia de Vasco Viana é, apesar de algo vulgarizada na actualidade cinematográfica, primorosa); e essa polidez naturalista inteira uma obra que, narrativamente falando, fica aquém de todo o alarde que a circunda. Em suma, o óbice que Rafa encontra em si mesmo é o seu minimalismo redutor, que acaba por negligenciar o poder de uma premissa muito bem arquitectada: a inversão das responsabilidades familiares e a cruel transposição dos papéis de mãe e filho.
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Nana (2011 | Valérie Massadian)

A partir das suas instâncias preambulares, esperava-se de Nana uma obra melodramática e pungente quanto à explanação profunda de uma criança que, tal como Rafa (numa espécie de paralelo com a curta-metragem de Salaviza), é deixada ao abandono e sob a sua ingénua responsabilidade. Pois bem, Nana não tem a audácia ou a sapiência suficientes para se alongar num assunto tão tortuoso como esse, e socorre-se à equação assaz rudimentar de um argumento básico e de uma realização tão artificial quanto os seus intentos de enternecer o público com a alvura angelical de uma menina em apuros. Da dissimulada mise-en-scène de Massadian (que tenta, desesperadamente, remeter o público para as suas demagogias de algibeira), à exacerbada focalização na jovem protagonista Kelyna Lecomte (na tentativa de ludibriar o público e esconder o vazio de um guião incompetentíssimo), Nana é, irrevogavelmente, um filme a esquecer pelos mais diversos e persistentes motivos.

Competição Nacional de Curtas (I)
1) O Cágado (2012, Pedro Lino e Luis da Matta Almeida)

Adaptado do conto original de Almada Negreiros, O Cágado é uma curta-metragem de animação que interpreta, sob a criatividade refrescante dos jovens realizadores Pedro Lino e Luís da Matta Almeida, a pitoresca fábula de um homem persistente e essa espécie de mini-tartaruga que acaba, na passividade da sua existência, por alterar-lhe a sua visão sobre o mundo. Tecnicamente irrepreensível e narrativamente estimulante, O Cágado é uma obra exemplar em toda a sua plenitude artística, ornamentada com um aguçadíssimo sentido estético (muito caricatural e hiperbólico) e uma capacidade interpretativa muito laboriosa e arrojada.
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2) La Chambre Jeune (2012, André Godinho)

Nas patéticas referências a Jean-Luc Godard, Ingmar Bergman e João César Monteiro, La Chambre Jeune é uma claríssima prova de falta de talento e cadência cinematográfica por parte de uma equipa angustiosamente amadora. Dos actores insípidos (gorados até na tentativa de resgatarem a actriz Soraia Chaves para uma maior visibilidade) à execrável inexistência de um argumento já de si vacuamente pretensioso e sem a mínima credibilidade, a curta-metragem de André Godinho é um erro diletante por parte da programação do festival, que exibiu, muito provavelmente, a sua pior obra em muito tempo.
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3) Mupepy Munatim (2012, Pedro Peralta)

Dos melhores ingressos no certame, Mupepy Munatim é, indubitavelmente, um pequeno grande filme. Belíssimo na imagética e avassaladoramente comovente no enredo, a curta-metragem de Pedro Peralta é uma amostra clara e transparente de uma propensão artística que começa, aqui numa obra de âmbito académico (e que a torna ainda mais surpreendente), a germinar de uma forma tão lírica e harmoniosa. Os enquadramentos, a iluminação e os planos fixos são de uma pulcritude arrebatadora e apuradamente realista, captando um inesperado primor visual nos subúrbios lisboetas. Palmas para um debutante que deixara, muito inevitavelmente, efusivas expectativas após este lindíssimo Mupepy Munatim.
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4) Fado do Homem Crescido (2012, Pedro Brito)

Fado do Homem Crescido é uma jornada nostálgica e saudosista, que evoca as longínquas recordações de uma infância repleta de cor, diversão e a sincera ingenuidade de uma criança que, muito naturalmente, desconhecia a espontânea felicidade em que estava envolta. Tradicionalmente popular e revivalista, a curta-metragem de Pedro Brito é um delicado regresso às origens tipicamente lusitanas de um rapaz que, agora envelhecido, mergulha nas melancólicas lembranças de uma era que já lhe é inatingível. Um hino aos anos de petiz ou uma triste fábula sobre a amargura de crescer, Fado do Homem Crescido é um filme polido e enternecedor, recolhendo o lado mais sentimental e introspectivo do espectador face às suas memórias de infância.
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5) O Que Arde Cura (2012, João Rui Guerra da Mata)

Um diálogo que permanece incógnito ao público, um monólogo tão próximo do espectador e das suas vivências amorosas. Em O Que Arde Cura, curta-metragem realizada por João Rui Guerra da Mata e protagonizada por João Pedro Rodrigues, fala-se de mudança, ruptura, metamorfose. A cisão do tempo é metaforizada pelo incêndio que erradicou as instalações dos Armazéns do Chiado no final dos anos 80, que é tido como ponto de partida para uma conversa - da qual só ouvimos um lado e presumimos o outro - que revela, com um naturalismo arrepiante, o fim de uma relação de três anos, das quais restam apenas cinzas: as recordações amarguradas e pesarosas de um casal que já não o é. Filmado num quarto muito expressivo e meticulosamente recriado (com o brilhante auxílio das projecções na parede, os acessórios vintage e as referências históricas no painel cénico), O Que Arde Cura é, sem sombra para dúvidas ou recuos, das melhores obras que estrearam nesta edição do Indie Lisboa '12, pela sua sublime capacidade de remeter a audiência para o cerne mais íntimo e visceral de uma relação que, com a erosão do tempo e das chamas, acabará por sarar e cicatrizar.

O Aros de Cebola vai estar presente na 9º edição do Indie Lisboa, o Festival Internacional de Cinema Independente com maior notoriedade e reputação no país. Ao longo das já estimadas 10 sessões, será feita uma cobertura crítica e aleatória das mais diversas obras fílmicas que passarão num circuito assaz recheado, tanto em variedade na temáticas como nas múltiplas nacionalidades que serão apresentadas no festival. Esperam-se, então nas próximas semanas, um registo diário dos filmes que o Aros de Cebola seleccionou. Entre Portugal e a República Checa, França e Inglaterra, Estados Unidos e a Alemanha, o Indie Lisboa conta com uma programação cinemática globalmente frutífera e gratificante, homenageando os realizadores veteranos e fazendo desabrochar os que agora emergem num panorama actual. Bons filmes!